Meu trabalho

Muita gente anda se perguntando, ou até mesmo me perguntando, o que eu faço por aqui. Se o Amir me sustenta ou se eu já consegui um mega trabalho de correspondente internacional. Bom, vamos por partes. Logo que cheguei aqui na Suíça, minha menor preocupação era meu futuro no jornalismo. Era tanta coisa passando pela minha cabeça, preparativos, casamento, aproveitar um pouco com a lua de mel. E depois que toda a correria passou nos mudamos para Zurique. Então decidimos que eu só iria me preocupar com emprego quando fossemos para a “cidade grande”. Chegamos em Zurique em setembro e até se estabelecer (materiais para a casa, curso de alemão, academia, seguro-saúde) levou quase um mês.

Durante o mês de agosto o Amir trabalhou muito extra pra garantir esse tempo de estabilidade, então a respeito de grana estávamos tranquilos. Fora o dinheiro que ganhamos para a lua de mel que não foi preciso gastar tudo. Casal controlado, não? Não, casal realista! Por ser bem realista, nunca tive a pretensão de achar que eu viria pra Suíça, um país que tem Universidades excelentes e consequentemente, formandos excelentes, e em 6 meses acharia um emprego de jornalista sem ao menos falar alemão. Aliás, essa nem era minha preocupação. Vim pra Suíça para finalmente viver meu relacionamento por mais de 3 meses. Passado setembro, comecei meu curso de alemão. Outubro terminou e a pressão psicológica chegava. Tanto minha como do pai do Amir, que vivia me perguntando se eu já tinha conseguido um emprego.

Entrei em sites, fóruns e tudo mais que podia me dar informações de como as coisas aqui funcionavam. E a decepção só aumentava, pela comprovação de que não seria fácil mesmo! Não encontrava absolutamente nenhuma oferta na área da comunicação.  Conheço uma menina, que por sinal é brasileira, mas vive aqui há anos, que faz faculdade de comunicação e já me disse: “Aprende alemão que eu te ajudo a encontrar alguma coisa. Mas aprende alemão!”.

Sim, é preciso saber ao menos o básico dessa língua, que não é nem um pouco fácil. Então lá fui eu me dedicar ainda mais ao curso, que já me dava bons sinais. Mas a pressão de viver às custas do Amir não estava me fazendo feliz. Eu sempre tive meu próprio dinheiro e pedir dinheiro pro marido pra comprar uma carteira de cigarro não rola. Algumas colegas do curso estavam na mesma situação. Quase todas tem ensino superior e insistem em conseguir o emprego dos sonhos sem ser local e muito menos, falar a língua local. Mas como eu disse, sou realista!

Eu estava tranquila com a ideia de não trabalhar na área, se assim fosse necessário, pois eu e o Amir já havíamos feito um acordo. Ele está na Universidade estudando economia e em menos de 2 anos se forma, então agora é a hora de focar nos estudos dele, já que o meu já está garantido, e quando ele se formar, nós vamos ter estabilidade financeira suficiente para eu voltar a focar na minha carreira. 

Foi aí que eu pensei eu procurar qualquer trabalho simples, que eu pudesse falar inglês e fosse mais fácil de encontrar. A maioria dos estudantes que eu conheço que estudam na Universidade trabalham em bar, boate ou restaurante. É super comum por aqui. Então entrei em contato com amigos, na esperança que só o inglês fosse suficiente. Necas. O básico do alemão era exigido. Ok.

Até que uma amiga estava aqui em casa, e no meio do assunto “Karina quer emprego” ela me perguntou: “me diz alguma coisa que te faria feliz trabalhando, alguma coisa que não tenha nada a ver com a tua qualificação”. Eu prontamente respondi: “cuidar de criança”. No outro dia eu já tinha uma mensagem no meu celular de uma mãe que estava interessada em contratar alguém para buscar dois meninos no jardim de infância e levar pra casa. E sempre falando inglês com eles, já que o jardim de infância é bilíngue. Muitas entrevistas foram feitas com a mãe dos meninos, muita espera e muita ansiedade, principalmente se ela aceitaria a quantia mensal que eu pedi. Final de outubro a resposta foi dada.

Hoje eu tenho meu emprego, de carteira assinada e tudo mais que é de direito. Com um salário que me proporciona mais coisas do que eu esperava. Trabalho três vezes por semana e continuo aprendendo alemão, na espera do dia eu possa falar a língua fluentemente e me aprofundar nos estudos, seja ele qual for! O importante mesmo é estar feliz!